5/2/09
Dando Um Jeito no Velho
Perto do prédio estava havendo uma festa. A música alta chegou aos ouvidos de Asdrúbal que logo correu, fanfarrão que só ele. De quem era a festa ele não queria nem saber. Queria somente aproveitar.
A festa era numa mansão. Era tanta gente que com certeza o anfitrião não teria tempo para cumprimentar um a um para saber se tinha algum penetra na festa. Asdrúbal era um deles, mas com certeza tinha muitos outros que comeriam e beberiam e depois sairiam numa boa ao final da festa sem serem descobertos.
Asdrúbal começou a dançar relembrando seus tempos de embalos de sábado à noite. Trec, crac, trec, crac, faziam os ossos do Asdrúbal já gastos pela idade, mas não obstante as ferrugens, ele dançava muito bem. Aproximou-se das moçoilas e começou a re-quebrar, jogando seu charme. Algumas se afastaram achando-o ridículo e outras entraram na onda e dançaram junto com ele.
- Bendito sou eu entre as mulheres! – disse ele, ajeitando a sua gravata borboleta.
Cansado, depois de um tempo Asdrúbal parou e foi molhar a goela. Pegou uma latinha de cerveja e foi para um canto. Bebericava a cerveja enquanto as gatinhas dançavam requebrando os quadris. E ele só apreciando a paisagem.
A um canto a certa distância um jovem disse a outro:
- Tenho que dar um jeito no velho.
Asdrúbal cuspiu a cerveja pra fora em um movimento automático. Olhou em derredor e o único velho da festa era ele. Tentando ser discreto, mas chamando mais atenção ainda, Asdrúbal correu em direção a casa, se esgueirando por entre as folhagens dos arbustos.
- Eles vão me matar! Ai, meu padin, padre Ciço! Eu devo ter dançado com a namorada dele e agora ele quer me matar! – Ele tropeçou num galho e foi de cara no chão. – Ai, meu Deus! Se eu sair vivo dessa, nunca mais entro de penetra em festa nenhuma! – De repente, um rosnado atrás de Asdrúbal. – Aaaaaaaaaaaaaaa! – Ele saiu gritando desesperado, numa carreira tão grande que nem bala pegava e entrou na primeira porta que viu.
Um rapaz estava com duas mulheres na cama e Asdrúbal saiu de fininho.
O cachorro rosnava e rangia os dentes para Asdrúbal que saia desembestado. O cachorro parecia um lobo, era um husky siberiano.
Asdrúbal entrou no banheiro e pegou um casal transando embaixo do chuveiro.
- Valei-me meu São Benedito! Isso é uma casa ou um prostíbulo? – Nunca mais venho a uma festa nessa casa!, pensou. Voltou a correr morrendo de medo de ser devorado por aqueles dentes afiados do cachorro e entrou num outro quarto. Este estava vazio. Asdrúbal trancou a porta e pode respirar aliviado, pois o cachorro ficara do lado de fora. Deitou-se na cama enquanto o husky latia. – Acho que vou dormir aqui hoje. Esta cama é uma delícia!
- Dormir? Acha que consegue dormir comigo?
Em câmera lenta, Asdrúbal virou-se e viu saindo de detrás de uma cortina uma loira alta, provocante e muito gostosa, de lábios vermelhos como seu espartilho.
- Com certeza, não. Nem quero. Vem pro papai, vem.
- Venham meninas. – Outras garotas saíram de detrás da cortina e Asdrúbal com a boca aberta babando.
- Eita, é hoje que eu me acabo! – ele exclamou.
Antes de se deitarem, as garotas dançaram para Asdrúbal. E quando iam se deitar Asdrúbal ouviu em alto e bom som:
- Tenho que dar um jeito no velho. – Só podia ser o mesmo jovem de minutos antes no jardim, pois a voz era idêntica.
Asdrúbal ficou entre a cruz, a espada e a maçã. Se saísse do quarto, seria atacado pelo cachorro; se não fosse atacado pelo cachorro, o rapaz daria cabo dele; e se ficasse dentro do quarto, teria uma overdose de testosterona.
– E agora, meu padin, padre Ciço?
- Pule a janela, meu filho – uma voz rouca soou no ar.
- A janela? – Ele estava encostado no peitoril da janela olhando o chão lá embaixo. – É, eu vou morrer de todo jeito. – Asdrúbal pediu desculpa as meninas por não poder ficar, preparou-se e pulou da janela do segundo andar. Paft! Ele se emborrachou no chão. – Ai, tô vivo ainda? – ele apalpou o rosto e os braços. Se levantou decidido a ir embora e nunca mais voltar.
Pelo caminho ele viu os dois jovens sentados à uma mesa e um deles disse:
- Cara, que merda! Esse sapato foi furar logo na festa da Karol! Sacanagem… E pior que segunda começo a trabalhar na empresa do meu pai e este é o único sapato social que tenho. Tenho que dar um jeito nesse sapato velho porque só vou poder comprar um novo quando receber o salário.
Asdrúbal olhou os dois estático.
- O velho era o sapato? Que porcaria! Perdi a festa toda por causa de um sapato furado. – Depois de alguns segundos de decepção veio a malandragem: - Então Deus, a promessa que eu fiz não valeu, porque o velho não era eu, era o sapato. Garotas, voltei!

criado por deveneta
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