Vovô Garrafão e Vovó 190

As aventuras destes vovôs maluquetes!

5/2/09

Dando Um Jeito no Velho

 

      Perto do prédio estava havendo uma festa. A música alta chegou aos ouvidos de Asdrúbal que logo correu, fanfarrão que só ele. De quem era a festa ele não queria nem saber. Queria somente aproveitar.

      A festa era numa mansão. Era tanta gente que com certeza o anfitrião não teria tempo para cumprimentar um a um para saber se tinha algum penetra na festa. Asdrúbal era um deles, mas com certeza tinha muitos outros que comeriam e beberiam e depois sairiam numa boa ao final da festa sem serem descobertos.

      Asdrúbal começou a dançar relembrando seus tempos de embalos de sábado à noite. Trec, crac, trec, crac, faziam os ossos do Asdrúbal já gastos pela idade, mas não obstante as ferrugens, ele dançava muito bem. Aproximou-se das moçoilas e começou a re-quebrar, jogando seu charme. Algumas se afastaram achando-o ridículo e outras entraram na onda e dançaram junto com ele.

      - Bendito sou eu entre as mulheres! – disse ele, ajeitando a sua gravata borboleta.

      Cansado, depois de um tempo Asdrúbal parou e foi molhar a goela. Pegou uma latinha de cerveja e foi para um canto. Bebericava a cerveja enquanto as gatinhas dançavam requebrando os quadris. E ele só apreciando a paisagem.

      A um canto a certa distância um jovem disse a outro:

      - Tenho que dar um jeito no velho.

      Asdrúbal cuspiu a cerveja pra fora em um movimento automático. Olhou em derredor e o único velho da festa era ele. Tentando ser discreto, mas chamando mais atenção ainda, Asdrúbal correu em direção a casa, se esgueirando por entre as folhagens dos arbustos.

      - Eles vão me matar! Ai, meu padin, padre Ciço! Eu devo ter dançado com a namorada dele e agora ele quer me matar! – Ele tropeçou num galho e foi de cara no chão. – Ai, meu Deus! Se eu sair vivo dessa, nunca mais entro de penetra em festa nenhuma! – De repente, um rosnado atrás de Asdrúbal. – Aaaaaaaaaaaaaaa! – Ele saiu gritando desesperado, numa carreira tão grande que nem bala pegava e entrou na primeira porta que viu.

      Um rapaz estava com duas mulheres na cama e Asdrúbal saiu de fininho.                             

      O cachorro rosnava e rangia os dentes para Asdrúbal que saia desembestado. O cachorro parecia um lobo, era um husky siberiano.

      Asdrúbal entrou no banheiro e pegou um casal transando embaixo do chuveiro.

      - Valei-me meu São Benedito! Isso é uma casa ou um prostíbulo? – Nunca mais venho a uma festa nessa casa!, pensou. Voltou a correr morrendo de medo de ser devorado por aqueles dentes afiados do cachorro e entrou num outro quarto. Este estava vazio. Asdrúbal trancou a porta e pode respirar aliviado, pois o cachorro ficara do lado de fora. Deitou-se na cama enquanto o husky latia. – Acho que vou dormir aqui hoje. Esta cama é uma delícia!

      - Dormir? Acha que consegue dormir comigo?

      Em câmera lenta, Asdrúbal virou-se e viu saindo de detrás de uma cortina uma loira alta, provocante e muito gostosa, de lábios vermelhos como seu espartilho.

       - Com certeza, não. Nem quero. Vem pro papai, vem.

       - Venham meninas. – Outras garotas saíram de detrás da cortina e Asdrúbal com a boca aberta babando.

       - Eita, é hoje que eu me acabo! – ele exclamou.

       Antes de se deitarem, as garotas dançaram para Asdrúbal. E quando iam se deitar Asdrúbal ouviu em alto e bom som:

      - Tenho que dar um jeito no velho. – Só podia ser o mesmo jovem de minutos antes no jardim, pois a voz era idêntica.

      Asdrúbal ficou entre a cruz, a espada e a maçã. Se saísse do quarto, seria atacado pelo cachorro; se não fosse atacado pelo cachorro, o rapaz daria cabo dele; e se ficasse dentro do quarto, teria uma overdose de testosterona.

      – E agora, meu padin, padre Ciço?

      - Pule a janela, meu filho – uma voz rouca soou no ar.

      - A janela? – Ele estava encostado no peitoril da janela olhando o chão lá embaixo. – É, eu vou morrer de todo jeito. – Asdrúbal pediu desculpa as meninas por não poder ficar, preparou-se e pulou da janela do segundo andar. Paft! Ele se emborrachou no chão. – Ai, tô vivo ainda? – ele apalpou o rosto e os braços. Se levantou decidido a ir embora e nunca mais voltar.

      Pelo caminho ele viu os dois jovens sentados à uma mesa e um deles disse:

      - Cara, que merda! Esse sapato foi furar logo na festa da Karol! Sacanagem… E pior que segunda começo a trabalhar na empresa do meu pai e este é o único sapato social que tenho. Tenho que dar um jeito nesse sapato velho porque só vou poder comprar um novo quando receber o salário.

      Asdrúbal olhou os dois estático.

      - O velho era o sapato? Que porcaria! Perdi a festa toda por causa de um sapato furado. – Depois de alguns segundos de decepção veio a malandragem: - Então Deus, a promessa que eu fiz não valeu, porque o velho não era eu, era o sapato. Garotas, voltei!

criado por deveneta    14:45 — Arquivado em: Sem categoria

Fama de Matador

À beira da piscina do prédio, um senhor de cabelos brancos todo de preto e uma bela jovem conversavam.
Asdrúbal e Mirian vinham chegando na hora e já ligaram seus radares auditivos e visuais.
Foi então que a jovem perguntou ao senhor:
- Você é famoso por matar todo mundo no final. Como se sente com isso?
- Me sinto bem. Me divirto.
Mirian puxou Asdrúbal para um canto. Asdrúbal disse:
- Você ouviu, Mirian? Ele deve ser um seqüestrador que mata todo mundo no final.
- Vamos ouvir mais um pouco.
A entrevista continuou com o senhor ainda com a palavra:
- Eu adoro matá-los! Já me cansei de tudo terminar com um final feliz.
Asdrúbal não se conteve:
- Mirian, esse homem é um matador cruel e sanguinário! Uma pessoa funesta e sem coração!
- Calma, Asdrúbal. Vamos lá pra cima.
Eles subiram para o apartamento da Mirian. Ela pediu para Asdrúbal sentar, ele estava tendo uma espécie de tique nervoso. Mirian lhe trouxe um copo d’água e em seguida pegou o telefone.
- Armando!
- O que foi dessa vez, Mirian?
- Lá embaixo tem um homem que disse que mata todo mundo no final.
- Mirian, um matador profissional nunca ia dizer isso assim. Você deve ter ouvido mal.
- Eu não ouvi mal! O Asdrúbal estava comigo e ele também ouviu!
- Mirian, se você dissesse que um adolescente ou um adulto tinha ouvido também, eu poderia até considerar, mas esse velho gagá!
- Não fale assim do Asdrúbal! Ele merece respeito! – Mirian desligou o telefone.
- O que ele disse? – perguntou Asdrúbal.
- Ele não acreditou.
- O que vamos fazer?
- Vamos investigar.
- Você é das minhas, garota!
Mirian ruborizou.
- Vamos!
Eles desceram.
A bela jovem já havia ido embora e o senhor estava se refrescando na piscina.
Os dois se aproximaram. Asdrúbal segurava firme sua arma: a bengala.
Mirian disse ao senhor:
- Bom dia.
- Bom dia. Vocês querem um autógrafo?
- Eu não quero autógrafo de um assassino! – Asdrúbal o ameaçava com a bengala.
- Me desculpe, ele está senil – Mirian interveio. – O senhor entende, não é?
- Entendo. Já ouvi coisas piores.
- Eu nunca o tinha visto aqui no prédio.
- Eu viajo muito a trabalho. Quase não paro em casa.
- Trabalho. Eu sei qual é o trabalho dele – sussurrou Asdrúbal.
- Você quer ficar quieto – Mirian falou sem mexer quase a boca. – Você vai comprometer a investigação desse jeito.
O senhor olhava os dois. Eles pareciam marido e mulher brigando.
Mirian voltou-se para o senhor:
- Qual o seu nome?
- Carlos Limeira.
- Que mal lhe pergunte, o senhor trabalha com o quê?
Nesse instante, Armando chegou.
- Mirian, você já preparou o almoço?
- Ainda não, Armando.
- Você tá muito folgada, sabia? Fica só de papinho, procurando crimes que só existem na sua cabeça!
- Não fale assim com a Mirian! – Asdrúbal foi pra cima de Armando com a bengala em punho.
- Não se intrometa, seu velho gagá!
- Não fale assim do Asdrúbal!
- Você o defende?
- Eu defendo qualquer um que esteja sendo injustiçado.
O senhor viu a necessidade de intervir.
- Senhores, por favor, não briguem. Você vai para casa fazer o almoço do seu marido e você vai para a sua casa.
- Eu não vou receber ordens de um assassino sanguinário! – disse Asdrúbal.
- Então ele é o matador que você falou, Mirian? – perguntou Armando.
- Sim.
- Ele não é matador coisa nenhuma! É um escritor muito famoso. Um mestre do gênero policial!
- Ah, não tinha como saber. Nunca li livro policial.
- Nem eu – falou Asdrúbal.
Armando parecia uma tiete diante de seu ídolo.
- Pode me dar um autógrafo? Eu li todos os seus livros.
- Claro.
Mirian e Armando se entreolharam.
- Não foi desta vez, jovem dama – Asdrúbal disse decepcionado.

criado por deveneta    14:39 — Arquivado em: Sem categoria

Canudo

Na portaria do prédio, Mirian e Seu José conversavam. Era uma tarde de pouco movimento, parecia que ninguém queria sair de casa, como durante um jogo do Brasil em Copa do Mundo.
- E o delegado, Dona Mirian? – perguntou Seu José, encostado no pára-peito da janela da portaria. – Nunca mais eu o vi.
Asdrúbal Beone vinha se aproximando apoiado em sua bengala.
- O delegado está bem, Seu José – respondeu Mirian.
- Delegado? Tem polícia aqui? – perguntou Asdrúbal, agitado.
- Calma, Seu Asdrúbal – pediu Seu José. – O delegado é Seu Armando, o marido de Dona Mirian.
- Seu marido é delegado?
- Sim.
- Que bom que temos um delegado no prédio! Qualquer coisa que acontecer a gente fala direto com ele, né?
- Mas o prédio é tranqüilo, Seu Asdrúbal – afirmou Seu José.

Mais tarde, à noite, Asdrúbal estava sentado numa cadeira de plástico à beira da piscina observando as estrelas quando viu um rapaz e uma moça num canto obscuro do estacionamento, e o rapaz entregou algo em forma de canudo para a moça. Asdrúbal puxou os óculos um pouco, apertou os olhos e depois pôs os óculos no lugar.
- Venda de drogas aqui no condomínio? O marido da Mirian precisa saber disso! – Asdrúbal caminhou até o elevador, arrastando os pés. A porta do elevador se abriu no quinto andar e ele saiu, quase sendo imprensado pela porta, que se fechara no tempo programado.
Mirian estava assistindo o telejornal quando ouviu a campainha tocar insistentemente. Estava de camisola e bóbis, pronta para dormir. Mirian esperou, mas a campainha não parou de tocar. Mirian levantou-se e foi ver quem era.
- Seu Asdrúbal, o que aconteceu?
- Estão vendendo drogas lá no estacionamento. Eu vi com estes óculos que um dia hão de quebrar! Seu marido está em casa? Ele precisa saber o que está acontecendo lá embaixo.
- Armando, vem aqui um instante.
- O que foi, Mirian? – Armando gritou lá do quarto.
- Seu Asdrúbal veio fazer uma denúncia.
- Só um instante. – Armando levantou-se, pôs um roupão e foi até a sala.
Asdrúbal apressou em dizer:
- Dr. Armando? Eu vi.
- O que o senhor viu?
- Tinha um rapaz e uma moça lá na garagem, ele entregou um negócio tipo um rolinho pra ela, deve ser um cigarro de maconha. O senhor tem que ir lá ver.
- O senhor tem certeza?
- Sim. Eu vi com estes óculos que um dia hão de quebrar!
Armando entrou e foi buscar o distintivo, pondo também uma roupa mais conivente com a situação. Ao seu retorno, ele, Mirian e Asdrúbal desceram para a garagem.
Asdrúbal apontou para os dois jovens no escuro.
- Parados aí! Polícia! – Armando levantou o distintivo. – Mãos na cabeça. Venham para onde eu possa vê-los.
O casal de jovens foram para a luz com as mãos na cabeça.
- O que estavam fazendo no escuro? – perguntou Armando.
- Namorando – disse a moça, trêmula.
- No escuro é mais gostoso, sabe? – completou o rapaz.
- Como eu sei. Nos meus tempos de juventude… – soltou Asdrúbal.
- Só estavam namorando? – Armando retomou a palavra.
- Sim – ambos responderam.
- E o baseado?
- Que baseado? – perguntou a moça.
- O cigarro de maconha que ele lhe deu.
- Não. Nós não usamos drogas.
- Eu vi. Você deu um rolinho pra ela – disse Asdrúbal.
- Rolinho?
O rapaz pensou um pouco e tudo clareou em sua mente.
- Ele deve estar falando do bilhete. Lembra? Eu enrolei todinho parecendo um canudo de papel.
- Ah, sim!
- Me dê o bilhete – pediu Armando. A moça pôs a mão no bolso e entregou o bilhete a Armando.
- O que diz, Armando? – perguntou Mirian.
- Jéssica, tô afinzaço de você. Quer ficar comigo?
- Ê, garoto! Manda ver – incentivou Asdrúbal.
Armando olhou sério para Asdrúbal e depois liberou os garotos.
De volta ao escuro, o casal beijou-se calorosamente.
- Seu Asdrúbal, o senhor está precisando trocar os óculos – disse Armando.
- Não. Eu vejo bem com esses. – Asdrúbal apertou os olhos.
- Vamos, Mirian.
- Até mais, jovem dama. – Asdrúbal beijou-lhe a mão.
- Boa noite, Seu Asdrúbal. - Ela estava rubra.
Armando e Mirian foram embora. Dentro do elevador, quando estavam só os dois, Armando perguntou:
- Quem é esse Asdrúbal? De onde o conhece?
- Ele mora aqui.
- Desde quando vocês se conhecem?
- Faz alguns dias.
- E ele já tem intimidade para lhe fazer galanteios?
- Ele só é um homem educado.
- Sei.
A porta do elevador se abriu e os dois saíram.

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Primeiro Encontro

 

      Mirian voltava de sua caminhada matinal quando viu um senhor já idoso deitado na beirada da piscina. “Será que ele está morto?’, pensou Mirian. Ela aproximou-se dele. Ele usava calça xadrez com suspensórios, óculos fundo de garrafa e uma boina de feltro. Cuidadosamente, Mirian o virou.

      - Senhor. Senhor.

      O homem acordou lentamente. Puxou um pouco os óculos, apertou os olhos quase cerrando-os totalmente, e depois pôs os óculos no lugar.

      - Quem é a senhora?

      - Sou Mirian. E o senhor?

      - Asdrúbal Beone, mas pode me chamar de Drube.

      - Olá, Seu Asdrúbal. O que faz na beira da piscina?

      - Eu não lembro. A senhora tem aspirina? Estou com uma baita dor de cabeça!

      - Tenho sim. Venha comigo.

      Asdrúbal levantou-se com a ajuda de Mirian e se pôs a procurar a sua bengala. Ela estava boiando na piscina. Asdrúbal ficou de joelhos na beira da piscina e esticou-se para pegá-la. Tchibum!

      - Socorro! Eu não sei nadar.  Glub, glub, glub… Mirian, me ajude!

      - Valei-me minha nossa senhora! – Mirian levou as mãos à cabeça. – Como eu vou salvar esse homem? Seu José! Seu José, pelo amor de Deus venha aqui!

      O porteiro saiu da portaria correndo e foi até a piscina.

      - O que foi, Dona Mirian?

      - O senhor Asdrúbal está se afogando.

      - Virgem Santa! Não se preocupe Seu Asdrúbal, eu já vou salvá-lo! – Seu José tirou a camisa e mergulhou na piscina. Pegou seu Asdrúbal já desacordado e o carregou até a borda da piscina. – Me ajude aqui, Dona Mirian. – Mirian o ajudou a tirar Asdrúbal da água.

      - Seu Asdrúbal! Seu Asdrúbal!

      Seu José fez uma respiração boca a boca nele. Ele botou uma grande quantidade de água para fora e, ao se dar conta do que Seu José tinha acabado de fazer, fez uma cara de nojo.

      - Eca! Fui beijado por um homem. Eu sou homem macho, rapaz! Eu gosto é de mulher! Nunca mais faça isso, tá me entendendo?

      - Estou. Da próxima vez que o senhor estiver se afogando, eu deixo o senhor morrer. – Asdrúbal emudeceu. Seu José voltou para a portaria.

      - Obrigada, Seu José – agradeceu Mirian. Depois, voltou-se para Asdrúbal. – Você não devia ter falado com o Seu José daquele jeito. Ele salvou sua vida.

      - Queira me desculpar, cara mia. Receio que a primeira impressão que deixei não foi muito boa.

      - Tudo bem. O senhor ainda vai querer a aspirina?

      - Não será preciso. Vou para casa tomar um banho e tomo a aspirina.

      - Em que andar o senhor mora?

      - No quinto, se não me engano.

      - Coincidência, eu também.

      - Quer que eu a acompanhe, jovem dama?

      - Jovem? – Mirian enrubesceu.

      - Sim. Mas eu não poderei ir de elevador molhado deste jeito.

      - Não tem problema. Nós vamos devagar, subindo um degrau de cada vez.

      Ele ofereceu seu braço para ela se apoiar assim como os cavalheiros faziam com as donzelas nos séculos passados.

criado por deveneta    14:30 — Arquivado em: Sem categoria

Três Oitão Enferrujado

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Mirian saiu do elevador. De tênis, malha e uma blusa folgada, ela ia fazer sua caminhada diária.

O dia estava lindo, temperatura amena, ruas silenciosas, ventos brandos.

Mirian ficava encantada com a grandeza do mar. As ondas quebravam na praia quase deserta àquela hora da manhã.

Na volta, junto a piscina do prédio onde Mirian morava, dois homens arrumavam tudo para um churrasco. Um deles comentou:

- Ontem à noite, eu peguei meu três oitão enferrujado e pei: acertei direto no alvo!

- O atirador de elite ainda está em forma, hein! – O outro homem bateu no ombro do amigo.

- É, ainda não perdi a prática. – O gordo riu todo orgulhoso.

Mirian correu. Parada diante da porta do elevador, Mirian foi atropelada por uma manada de crianças ensandecidas e barulhentas que saíram do elevador quando a porta se abriu.

- Ai, minhas colunas! – Mirian disse ainda no chão. Ela levantou-se com dificuldade e, com o tronco curvado, entrou no elevador, uma mão segurando a coluna e a outra apoiada na parede do elevador.

Em casa, Mirian caiu no sofá com a coluna doendo muito. Pegou o telefone e ligou para Armando.

- O que foi, Mirian? O apartamento tá pegando fogo? – ele atendeu com a sutileza de sempre.

- Armando, quando eu voltei da caminhada eu vi dois homens conversando na piscina e um deles disse que pegou um revólver e acertou o alvo de primeira. E o outro ainda disse que ele era atirador de elite.

Houve um longo silêncio.

- Mirian, qualquer dia desse você vai ser presa por calúnia e difamação.

- Mas meu marido é um delegado. Eles não podem me prender.

- Eles podem prender até o Papa, quanto mais a mulher de um delegado!

- Você vai deixar eles me prenderem, Armando?

- Vou! Assim você pára de perturbar a polícia com estes crimes imaginários. – Mirian ficou em silêncio. – Vá escrever um romance policial. Sua imaginação é muito fértil. Agora me deixe trabalhar. – Armando desligou o telefone.

Mirian ficou ali mesmo no sofá, sua coluna latejava.

Ela queria ir lá embaixo pôr os pingos nos is e descobrir o que o gordo tinha feito, mas sua coluna doía tanto que ela não conseguia nem andar até a porta.

Por volta do meio-dia, Armando chegou em casa.

- Mulher, tô com fome! Cadê o almoço?

- Eu não fiz almoço.

- Não fez por quê?

- Estou toda desconjuntada. Minha coluna está doendo muito.

- E agora, eu vou comer o quê?

- Não sei. Vá para um restaurante.

- Vamos – Armando disse contrariado. Mirian não se mexeu do canto. – Você vai ficar aí?

- Vou. Não consigo andar com a coluna doendo deste jeito.

- Passe um anti-inflamatório.

- Vá buscar ali no quarto pra mim. Tá na primeira gaveta do criado-mudo.

Armando resmungou, resmungou, mas foi buscar o anti-inflamatório.

O remédio atenuou a dor na coluna e Mirian pode enfim se levantar.

Quando Mirian e Armando passaram pela piscina, ela mostrou-lhe o dono do três oitão. Depois de muita insistência por parte dela, Armando prometeu falar com o homem quando voltasse do almoço.

No restaurante, meia-hora depois, Mirian já estava ficando agoniada. Armando não parava de comer e Mirian já estava em tempo de arrancar os bóbis do cabelo de tão impaciente que estava.

Depois de muito tempo, eles finalmente voltaram para casa. Armando ia passando direto para o elevador quando Mirian lembrou-o de sua promessa. Armando bufou e depois foi com ela até a piscina.

- Boa tarde, senhores – cumprimentou Armando.

- Boa tarde. Servido? – o gordo perguntou, erguendo o copo de cerveja.

- Não.

Mirian deu uma cotovelada em Armando.

- Ai. – Ele voltou-se para ela. Mais que depressa, ele se recompôs e olhou para os homens. – Os senhores já ouviram falar da campanha do desarmamento?

- Sim. Passou na televisão um dia desses.

- Eu sou da polícia. – Armando mostrou o distintivo. – Nós estamos recolhendo armas dos moradores daqui do bairro. Os senhores tem alguma arma?

Todos balançaram a cabeça em negativa.

Mirian precipitou-se impulsivamente:

- É mentira! – ela disse, olhando para o gordo. – Eu ouvi você dizer pra aquele ali que tinha pegado seu três oitão e tinha acertado no alvo!

- A senhora ouviu isso? Não foi nada. É que tive uma aventura com uma ninfetazinha ontem à noite. Vocês me entendem, né?

- Entendemos. – Armando saiu puxando Mirian.

- Espera, Armando. Eu não entendi.

A porta do elevador se abriu e Armando empurrou Mirian para dentro.

- Ai! Assim você acaba com minha coluna. – Armando nada disse. – Eu não entendi o que ele falou.

- O três oitão que ele falou nada mais é do que o seu pênis. Entendeu agora?

- O quê? E ele fala isso na frente de uma dama?

- Mirian, você já deixou de ser dama há muito tempo!

- Mas sou uma senhora de respeito!

Armando saiu do elevador em silêncio. Mirian foi logo atrás.

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O Corpo

O carrinho de compras chacoalhava. A calçada era muito irregular e, não raro, Mirian deparava-se com um buraco.
A jovem senhora de bóbis no cabelo, voltava da feira.
Duas mulheres conversavam na frente do prédio.
Mirian tentou ouvir o que elas diziam.
- Finalmente eu consegui matá-lo – disse uma.
Surpresa, Mirian levantou as sobrancelhas e procurou aguçar sua audição.
- E o que você fez com o corpo? – perguntou a outra.
- Joguei no lixo. Já estava cheirando mal.
Mirian passou de fininho pelas duas mulheres. Tentou parecer o mais natural possível.
Quando as mulheres já estavam longe, Mirian correu para o elevador.
Ela olhava para a telinha que indicava em que andar estava, impaciente. Sua perna direita balançava sem parar.
A porta do elevador se abriu. Mirian saiu em disparada.
Nem guardar as compras ela guardou. Foi direto para o telefone. Ia ligar para o 190. Repensou. Ligou direto para o celular do marido.
- Armando!
- O que foi, Mirian? Estou trabalhando.
- A mulher do 103 matou alguém e jogou o corpo no lixo!
- Mirian, vá procurar um crochê, um bordado, um tricô, qualquer coisa pra ocupar a sua mente pra vê se você para de ficar fantasiando coisas!
- Armando, eu ouvi ela dizendo pra vizinha do 303 que jogou o corpo no lixo porque já estava cheirando mal!
- Você deve estar imaginando coisas.
- Armando! Eu ouvi!
- Na nossa idade, é normal não escutarmos direito e entendermos mal. Agora me deixe trabalhar. – Ele desligou o celular.
Não ia ficar assim. Mirian decidiu tirar aquela história a limpo.
Pegou o elevador e foi para o 103. Saiu do elevador já com uma desculpa na cabeça.
Bateu na bota. Ninguém apareceu. Pressionou a campainha por alguns segundos. Também nada. Será que a mulher havia fugido? Mirian apertou a campainha mais uma vez.
Alguns segundos depois, a porta se abriu.
- Olá! Será que você poderia me emprestar um pouco de açúcar? – disse Mirian.
- Claro. Espere um instante. – A mulher entrou e deixou a porta aberta. O apartamento era gradeado.
Mirian sentiu um cheiro de desodorizador de ambientes, o famoso e popular Bom Ar, vindo de dentro do apartamento. Ih, já danou Bom Ar no apartamento pra ninguém sentir o mal cheiro da morte! Era um indício. Mirian ficou se esticando pra ver se conseguia ver alguma coisa.
A mulher voltou com uma xícara de açúcar.
- Aqui está.
- Obrigada. – Mirian forçou um sorriso. Pegou a xícara e foi embora.
Droga! Mirian não havia conseguido nada. Mas o cheiro de Bom Ar era um forte indício de que ela estava certa. A mulher realmente tinha matado alguém.
Quando Mirian estava esperando o elevador, teve uma idéia.
Correu até o balde de lixo e começou a fuçar. Tirou um saco, tirou outro. Nada. De súbito, viu um saco com uma mancha úmida. Quando viu, era uma mancha vermelha. Pronto! Aquele era o saco com o corpo! Lentamente, ela aproximou o nariz do saco.
- Molho de tomate? – Decepcionada. – O corpo deve estar no lixeiro geral do prédio. – Desceu.
Haviam algumas pessoas na piscina.
A jovem senhora de bóbis no cabelo não passou despercebida. Mas ela não deu bola para as piadinhas e foi para o outro lado onde estava o lixeiro geral do prédio.
Ela abriu o lixeiro. O cheiro subiu. Ela pegava os sacos e punha no chão. Mas um saco estava pesado demais. Mirian pôs o saco no chão e abriu. Olhou, olhou, olhou, mas antes que ela identificasse o que tinha dentro do saco, uma voz a chamou:
- Dona Mirian, o que está fazendo?
- An.. Seu José? – Ela não tinha nenhuma resposta pronta. – Eu.. Acho que joguei um documento no lixo por engano.
- Quando foi isso?
- Ontem.
- Ah, dona Mirian, então já está lá no lixão! A senhora esqueceu que o caminhão de lixo passa toda sexta?
- É mesmo. Tinha esquecido. Sabe como é a idade…
- Eu sei.
- Bom seu José, se o senhor me der licença.
Mirian voltou para o seu apartamento. Chocou-se quando viu que já eram onze horas. Ela ainda tinha que fazer o almoço.
No elevador, estava a mulher do 103. Calma, tranqüila, parecia que não tinha feito nada de errado. Mirian olhava pra ela indignada. Uma assassina andando no meio de gente de bem.
- Mulher, apareceu um rato na minha casa – comentou uma jovem com seus vinte e poucos anos. – Fui lá no mercado comprar veneno. Tenho pavor de rato!
- Apareceu um lá em casa também. Comprei veneno essa semana e quando foi hoje encontrei o rato morto. Já estava cheirando mal.
Um rato? Esse era o corpo? Mirian então se deu conta da coisa nojenta que fizera: fuçar o lixo. Eca! E se ela tivesse encontrado o rato? Mirian fez uma careta de nojo.
- Mas como é que pode, né? Um condomínio tão chique quanto este… – comentou Mirian.
A porta do elevador se abriu e as duas mulheres saíram.
Mirian então deixou transparecer sua tristeza e sua decepção. Só pensava em quando chegar em casa, lavar as mãos umas dez vezes antes de preparar o almoço.

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Socorro

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Mirian e o marido, Armando, já haviam se recolhido.
Os dois eram gordos e estavam na faixa etária dos 50 aos 60 anos. Ela estava de camisola e bóbis no cabelo. Ele estava só de cueca samba-canção.
Armando virou-se para o lado e logo começou a roncar. Mirian pensava no que tinha para fazer no dia seguinte: lavar roupa, pagar a conta de luz, dar conta das encomendas de roupas.
De repente, Mirian foi arrancada de seus pensamentos corriqueiros. Do apartamento vizinho, vinham gritos.
- Socorro! Socorro!
- Ai, meu Deus! – Ela levou a mão à boca. Na sua mente, só o pior. – Armando! Armando! – ela sacudia o marido.
- O que foi?
- O cara do apartamento vizinho tá gritando por socorro.
- Não deve ser nada.
- Armando! Você precisa ir lá. Armando! – Ela o sacudiu novamente.
- Deixe eu dormir, Mirian. Tenho um dia cheio na delegacia amanhã.
- Armando, o cara pode estar correndo risco de vida. E se um assassino tiver invadido o prédio?
Armando não deu resposta.
- Socorro! Socorro! – os gritos fizeram-se ouvir mais uma vez.
- Você ouviu? – perguntou Mirian.
- O quê?
Ela demorou alguns segundos para responder:
- Calou-se.
- Vai dormir, Mirian.
De novo os gritos.
- Ouviu? Armando, você precisa ir lá!
Armando virou-se para a mulher.
- Se eu for lá, você vai deixar eu dormir?
- Sim.
- Então vamos logo.
Os dois se levantaram. Armando vestiu uma roupa e Mirian foi do jeito que estava mesmo.
Mirian estava nervosa. Temia que tivesse um bandido no apartamento vizinho. E se ele tivesse matado o vizinho e quisesse matá-los também por terem ido lá se intrometer? Esta possibilidade fez o coração de Mirian disparar e ela levou a mão à boca.
Defronte a porta do apartamento, Armando já ia tocar na campainha quando Mirian disse:
- Não, Armando. Vamos para casa.
- Agora que já viemos até aqui, vamos até o fim. – Ele aproximou o dedo da campainha mais um pouco.
- Não!
- O que foi? Não foi você que insistiu para que eu viesse?
- Estou com medo. E se tiver um assassino aí e ele resolver nos matar também por termos nos intrometido?
- Que assassino, que nada. Você vai ver. Não está acontecendo nada aí dentro.
DIM-DOM. Finalmente Armando conseguiu apertar a campainha.
Passaram-se alguns segundos.
Mirian só não roia as unhas porque haviam sido pintadas há menos de vinte e quatro horas. Seus olhos, arregalados, estavam vidrados na porta.
Uma jovem esbelta atendeu a porta de baby-doll.
Armando deu uma conferida no material. Recebeu uma cotovelada de Mirian.
- Boa noite, senhorita – disse ele. – Minha esposa ouviu gritos vindos de seu apartamento. Está tudo bem?
- Sim. Tudo ótimo.
- Viu, Mirian? Está tudo bem. Vamos! – Ele saiu andando a passos largos, deixando Mirian para trás.
- Desculpe o incômodo – ela pediu e foi-se.
De volta ao quarto do casal, Armando disse:
- Só me acorde se a casa estiver pegando fogo. – Virou-se para o outro lado e em poucos minutos começou a roncar.
Mirian não conseguia dormir. Ela não estava tendo alucinações. Ela tinha ouvido os gritos de socorro. Será que aquela moça estava escondendo alguma coisa? “Será que ela é uma garota de programa e o cara não quis pagar? Será que ela matou o marido?” – pensou Mirian.
Gritos de socorro ecoaram no ar.
Mirian correu até a parede. Encostou o ouvido na mesma. Seu sangue gelou com o que ouviu.
Aproximou-se do marido e começou a sacudi-lo.
- Armando! Armando!
- A casa tá pegando fogo?
- A mulher tá matando o cara!
- Aham.
- Armando! Você precisa ir lá!
- Eu já fui. A mulher disse que estava tudo bem. Agora vá dormir.
- Armando! Você é um policial. Não pode deixar a mulher matar o cara e não fazer nada.
- Estou fora do meu expediente.
- Você tem que fazer alguma coisa!
- Se tem tanta certeza que está acontecendo um homicídio, então ligue para a polícia.
- Mas você é a polícia! Armando!
Com a paciência no limite, Armando olhou bem sério para a esposa.
- Mirian, eu não posso fazer nada sem um mandado. Agora, por favor, me deixe dormir!
Mirian estava indignada com a indiferença do marido. Um homicídio acontecendo no apartamento ao lado e ele não fazia nada.
Ela foi até a sala andando na ponta dos pés. Sentou-se no sofá ao lado do telefone. Discou 190. Sussurrando, ela disse ao atendente o que tinha ouvido. Este se prontificou a mandar uma equipe para o local para averiguação.
De butuca ligada, Mirian ficou em pé em cima do vaso sanitário olhando pela janela. Prestava atenção em cada carro que passava, e mais ainda nos que estacionavam perto do prédio.
Quando viu uma viatura da polícia se aproximar, correu para a porta de entrada do apartamento. Abriu-a. Olhou para um lado, para outro. Não tinha ninguém no corredor. Correu e escondeu-se atrás de um balde de lixo. Lá ela tinha uma visão ampla de todo o corredor.
A porta do elevador se abriu e os policiais saíram. Dirigiram-se ao apartamento referido na denúncia que haviam recebido.
- Polícia! – o cara mostrou o distintivo.
- Pois não? – disse a moça esbelta.
- Recebemos uma denúncia anônima. A pessoa disse que ouviu gritos de socorro vindos do seu apartamento.
- Gritos de socorro?
- Sim.
- Deve ter sido em outro apartamento.
- Podemos entrar?
- É que…
- Socorro! Oh, Socorro! Vem logo, mulher! – uma voz gritou lá de dentro.
- Já vou!
- Seu nome é Socorro?
- Sim, senhor.
- Então deve ter sido isso.
- O quê?
- Nada não. Desculpe o incômodo. Boa noite.
Socorro fechou a porta e entrou.
Mirian saiu de seu esconderijo e foi ter com os policiais.
- E então? O que descobriram?
- Do que a senhora está falando?
- A garota matou o cara?
- Ah. Então foi a senhora que fez a denúncia anônima?
- Sim.
- Minha senhora, o que a senhora ouviu nada mais era do que o marido chamando a esposa.
- Como assim? Eu vi o cara gritando: “Socorro! Socorro!”.
- Exatamente. O nome da mulher é Socorro.
- O nome dela é Socorro? – Mirian murchou.
- Sim.
Mirian não sabia com que cara olhar para o policial. Virou o rosto.
- Minha senhora, vá descansar. Uma boa noite de sono lhe fará bem.
- Tá.
- Tenha uma boa noite.
Os policiais entraram no elevador.
Mirian ficou parada no corredor. Estava decepcionada com o desfecho daquela história.
- SOCORRO! SOCORRO! Alguém, por favor. Socorro! – uma voz fez-se ouvir.
Mirian, que estava a meio caminho da porta de seu apartamento, parou um pouco. Aqueles gritos de socorro pareciam bastante aflitivos. Ela cogitou em correr para ver se alcançava os policiais. Pensou.
- Ah, deve ser outro marido que tem uma esposa chamada Socorro! – Entrou em casa.

criado por deveneta    13:51 — Arquivado em: Sem categoria

Sejam bem-vindos ao mundo destes vovôs maluquinhos! Venham sempre ver o que estes dois estão aprontando!

criado por deveneta    13:24 — Arquivado em: Sem categoria
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Am I a spambot? yes definately
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